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IMAGINARY LANDSCAPE #5



2007. Video Projection. DV Pal transferido para DVD, cor, som. Versão demo. Colecção do Artista.



Esta peça é uma interpretação livre da pauta da composição Imaginary Landscape#5 de John Cage. A interpretação que faço da pauta de Cage, estabelece uma relação com um excerto do livro Dan Yack de Blaise Cendrars.
O enunciado geral de #5 refere a possibilidade de criar uma composição através de corte, colagem e justaposição de quarenta e dois discos de vinil. Na gravação que efectuou desta peça, Cage apenas utilizou discos de jazz mas deixou explícito, na pauta, que a peça poderia funcionar com quaisquer tipos de discos, desde que fossem quarenta e dois. Da peça ainda existe uma pauta com indicações específicas relativamente às operações de montagem e justaposição, derivadas dos métodos de indeterminação e acaso que Cage utilizava.
Partindo da ideia geral de Imaginary Landscape #5 e na sequência de algumas experiências que fiz por esta altura, com sobreposição de grandes quantidades de registos fonográficos, inspirado pelo episódio narrado por Cendrars decidi fazer uma interpretação livre da pauta de Cage. Escolhi o vídeo como medium de realização da peça, facto que me acrescentaria uma dimensão visual composição. Neste aspecto o suporte de fita magnética a que Cage se referia como medium de realização da obra não foi adulterado, na medida em que o MiniDV é um suporte baseado em fita magnética. Respeitando as indicações de Cage escolhi quarenta e dois discos de vinil e gravei a totalidade do seu conteúdo sonoro recorrendo essencialmente a discos que tivessem uma sonoridade subtil ou ‘pouco som’.
Desrespeitando as indicações de Cage limitei-me a sobrepôr o som da totalidade dos quarenta e dois discos, rejeitando operações de corte ou montagem. Neste sentido foi uma simples operação de ‘mistura passiva.
Simultaneamente fotografei as capas de todos os discos e por operações de programação liguei tecnicamente o factor de visibilidade (opacidade) da imagem da capa do disco ao de audibilidade do conteúdo sonoro respectivo.
Decidi que a peça iniciar-se-ia com os quarenta e dois discos a começarem a tocar em simultâneo e, na medida em que todos os discos teriam durações diferentes, simplesmente desapareciam da composição medida que terminava a sua duração.
Por sua vez o vídeo começaria com uma imagem bastante abstracta, resultante da sobreposição visual em transparência das quarenta e duas capas dos discos e progrediria para uma imagem mais reconhecível, onde se começava a perceber que era resultante da mistura da imagem de capas de discos. Todo este processo de mistura das imagens tinha uma ‘palpitação’ própria dado estar sujeito s dinâmicas sonoras do disco correspondente.
No final sobraria a imagem da capa de um único disco, o de maior duração com o som respectivo.
Esse disco que permanecia até ao fim da composição era de Phil Niblock e ostentava numa capa branca a frase “Nada para olhar apenas um disco”. Este final foi propositado, e foi possível porque reduzi substancialmente o pitch do disco. A alteração de velocidade em mais alguns discos foi a única operações de edição a que submeti os discos por uma questão de equilíbrio de duração relativa entre os discos e de harmonia de tonalidade entre eles.
A imagem abstracta que dominava a maior parte da duração do vídeo ganhava uma relação metafórica com o título da peça. Mas esta abstracção culminava numa figuração – a visibilidade cristalina, da imagem da capa do último disco.
A dimensão sonora de ruído extremo quase ensurdecedor do volume alto a que se ouvem tocar quarenta e dois discos em simultâneo não deixa de ser, por contradição, um processo de silenciamento da música contida em cada um deles, dado que a amálgama sonora é totamente destruidora do sentido musical de cada um dos discos.
Na maior parte da sua duração o som é bastante alto e ruidoso, no entanto termina num volume de som consideravelmente mais baixo. O ruído é decrescente, o seu auge é o começo com o som do início simultâneo de todos os discos, diminuindo da para a frente, a partir da segunda metade da duração da peça, quando começam a deixar de se ouvir os discos de menor duração. Desta forma, progressivamente, o ruído desvanece-se e, no fim, reduz-se ao som de uma nota contínua – a nota contínua que o disco de Niblock nos dá a ouvir.