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RUI VALÉRIO. SONATAS AND INTERLUDES. 2017

KUBIK GALLERY. 25 NOV. 2017 - 3 FEV. 2018.

Folha de Sala

Sobre a exposição

Rui Valério apresenta na Kubik Gallery (Porto) a exposição individual ‘Sonatas and Interludes’. Sonata, do latim sonare, peça musical para ser interpretada instrumentalmente e interlúdio, no sentido musical de pausa ou ponte são conceitos que o artista recria ao agir sobre a representação escrita do som, ou seja, agindo instrumentalmente sobre o formalismo do código de notação musical e o seu suporte, a pauta musical, símbolos de representação da música entendidos quase universalmente.
É da exploração deste código e deste suporte que Rui Valério parte escrevendo o seu próprio caderno de composição. ‘Sonatas and Interludes’ iniciou-se pela concepção de uma série de desenhos onde explora diferentes tipos de abordagem gráfica, recorrendo a diversos tipos de técnicas e materiais de uma forma que evita a noção convencional de desenho e da escrita - o resultado do gesto. Estes desenhos, todos desenvolvidos em folhas de pauta musical são propositadamente espartilhados pela presença da própria grelha gráfica da pauta. É por adição de elementos ou pela desconstrução da própria estrutura da pauta que se desenvolve um processo de composição - que se pode interpretar duplamente – tanto no sentido de obra visual como no sentido de obra musical susceptível de ser tocada.
No espaço da galeria este conceito redimensiona-se, não só porque se adapta ao espaço arquitectónico em obras site specific, como porque o espaço é ocupado como se de uma pauta se tratasse, com as suas marcações e vazios. A transposição sinestésica do visual para o sonoro assume-se como o ponto de partida conceptual que define a totalidade dos trabalhos - os desenhos e instalações que compõem a exposição e, simultaneamente permitem afirmar que a exposição é toda ela resultado dum processo de composição.

Joana B. Coelho / Rui Valério 2017

Sobre os desenhos

Sonatas and interludes é, também, o título genérico de um vasto conjunto de desenhos que se relacionam com a noção de pauta visual. Têm formatos próximos do A4 e são todos executados sobre papel de pauta musical. Estes desenhos exploram a utilização de uma série de técnicas diversas que se desviam sempre da sua noção mais académica - o resultado da utilização do gesto e da sua expressão.
Usei apenas meios de registo que se enquadram numa noção de execução mecânica ou artesanal onde não se distingue o gesto do artista - materiais e técnicas que nunca são 'meios riscadores', como por exemplo linha de coser, fita magnética, madeira, tiros de pressão de ar, máquina de escrever, queimaduras de cigarro, utilização de elementos cinéticos, chumbos de pesca, entre outras formas de intervenção, de forma isolada ou combinada.
Por outro lado, apesar de se desenvolverem a partir da tradição das pautas visuais assentam no paradoxo de serem sempre executados a partir da estrutura gráfica da anotação musical convencional - em oposição à grande maioria dos exemplos de métodos de anotação musical não convencional - que quase sempre se libertam dessa mesma estrutura gráfica.
Uma razão que justifica a utilização do papel de pauta musical prende-se com o facto desta decisão permitir que possa haver uma compreensão mais universal do pressuposto destes desenhos poderem ser interpretados do ponto de vista musical. Por outro lado interessou-me que o desenho ou intervenção gráfica se desenvolvesse a partir desta imposição visual inicial e explorei a sua presença como estrutura base para desenvolver diferentes soluções gráficas, quer por adição de elementos, quer por desconstrução da sua estrutura ou mesmo acentuando a sua existência pelo reforço dos seus aspectos estruturais.
Estas intervenções, gráficas ou visuais, estáticas ou dinâmicas que aludem a possíveis sistemas de anotação musical e portanto especulam sobre a possibilidade de serem interpretáveis sob o ponto de vista sonoro permitem estabelecer uma primeira relação com os métodos de anotação musical não convencionais utilizados por uma série de compositores do séc. XX como sejam Cage, Stockhausen, Xenakis, Ligeti, entre outros e uma segunda com a tradição da sinestesia - factos que se afirmam como os principais pontos de partida de ordem conceptual desta série de trabalhos. Ocasionalmente é utilizada a apropriação de configurações visuais que aludem a obras de artistas, como por exemplo Mondrian, Lewitt, Judd, etc. Este facto confirma a possibilidade de leitura sinestésica destas obras apropriadas e a sua presença dilui-se no carácter abstracto e minimal que caracteriza a generalidade dos trabalhos sob o ponto de vista formal. Sob outro ponto de vista, esta série integra-se numa premissa presente numa linha da minha produção artística anterior, que resulta da combinação de referências entre as artes visuais e a música, desta vez através duma prática ainda não muito explorada no meu trabalho - a noção convencional de desenho. Esta série de trabalhos existe na intersecção dessas duas camadas de sentido - afirmam-se como sistemas de anotação musical - contrariando a sua autonomia visual, sugerindo poderem ser apenas sistemas de escrita para serem interpretados sob o ponto de vista sonoro, e por outro lado poderem ser compreendidos na sua outra possível condição: de desenhos - destinados a uma simples apreciação estética e visual. É nessa condição de duplicidade que me interessa que estas peças existam e possam ser apreciadas e/ou interpretadas.

Rui Valério 2017


Exhibition Text

About the exhibition

Rui Valério presents at the Kubik Gallery (Porto) the individual exhibition 'Sonatas and Interludes'. Sonata, from the Latin sonare, musical piece to be interpreted instrumentally and interlude, in the musical sense of pause or bridge are concepts that the artist recreates when acting on the written representation of the sound, that is, acting instrumentally on the formalism of the musical notation code and its support, the musical agenda, symbols of representation of music understood almost universally.
It is from the exploration of this code and from this support that Rui Valério starts writing his own composition book. 'Sonatas and Interludes' began by designing a series of drawings where it explores different types of graphic approach, resorting to different types of techniques and materials in a way that avoids the conventional notion of drawing and writing - the result of the gesture. These drawings, all developed in sheets of music, are purposely parsed by the presence of the graphic grid of the staff. It is by adding elements or by the deconstruction of the structure of the staff that a process of composition - which can be doubly interpreted - is developed both in the sense of visual work and in the sense of musical work that can be played.
In the space of the gallery, this concept is re-dimensioned, not only because it adapts to the architectural space in site-specific works, but also because the space is occupied as if it were an agenda, with its markings and voids. The synesthetic transposition of the visual to the sonorous is the conceptual starting point that defines the totality of the works - the drawings and installations that compose the exhibition and, simultaneously, allow to affirm that the exhibition is all the result of a process of composition.

Joana B. Coelho / Rui Valério 2017

About the drawings

Sonatas and interludes is also the generic title of a vast set of drawings that relate to the notion of visual guideline. They have formats close to the A4 and are all executed on musical paper. These drawings explore the use of a series of diverse techniques that always deviate from their more academic notion - the result of the use of the gesture and its expression.
I have used only recording media that fit into a notion of mechanical or artisanal execution where the gesture of the artist is not distinguishable - materials and techniques that are never 'scratching media', such as sewing thread, magnetic tape, wood, pressure shots air, typewriter, cigarette burns, use of kinetic elements, fishing leads, among other forms of intervention, in isolation or in combination.
On the other hand, although they develop from the tradition of visual cues, they are based on the paradox of being always executed from the graphical structure of conventional musical annotation - as opposed to the great majority of examples of methods of nonconventional musical annotation - that almost always free from the same graphic structure.
One reason justifying the use of the musical agenda is that this decision allows a more universal understanding of the presupposition of these drawings to be interpreted from the musical point of view. On the other hand I was interested that the graphic design or intervention developed from this initial visual imposition and explored its presence as a base structure to develop different graphic solutions, either by adding elements, or by deconstructing its structure or even accentuating the its existence by strengthening its structural aspects.
These graphic or visual, static or dynamic interventions that allude to possible musical annotation systems and therefore speculate about the possibility of being interpretable from the point of view of sound allow us to establish a first relation with the non conventional methods of musical annotation used by a series of composers of the century. XX such as Cage, Stockhausen, Xenakis, Ligeti, among others and a second with the tradition of synesthesia - facts that affirm themselves as the main conceptual starting points of this series of works. Occasionally it is used the appropriation of visual configurations that allude to the works of artists, like for example Mondrian, Lewitt, Judd, etc. This fact confirms the possibility of a synesthetic reading of these appropriate works and their presence is diluted in the abstract and minimal character that characterizes the majority of the works from the formal point of view. From another point of view, this series is part of a premise present in a line of my previous artistic production, which results from the combination of references between the visual arts and music, this time through a practice not yet explored in my work - the conventional notion of design. This series of works exists at the intersection of these two layers of meaning - they are asserted as musical annotation systems - contradicting their visual autonomy, suggesting that they may be just writing systems to be interpreted from the point of view of sound, and on the other hand be understood in their other possible condition: of drawings - intended for a simple aesthetic and visual appreciation. It is in this condition of duplicity that I am interested that these pieces exist and can be appreciated and / or interpreted.

Rui Valério 2017



RUI VALÉRIO. SABOTAGE. 2013

GALERIA GRAÇA BRANDÃO produção FRANCISCO FINO ART PROJECTS.

Press Release

Se pensarmos em geometria chamamos a dois planos que se cruzam, planos intersectados. Nessa intersecc?a?o eles cortam-se e interrompem-se ao mesmo tempo que se unem e passam a formar um todo indissocia?vel. Ai? pertence o trabalho de Rui Vale?rio, o lugar onde se materializa a intersecc?a?o, onde se transpo?em, combinam e misturam ligac?o?es inesperadas.
Os objectos arti?sticos que nos apresenta, sa?o sempre uma coisa e outra, obrigando-nos a senti- los e a percebe?-los em sentidos que se interceptam. Sa?o objectos provocato?rios que exploram significados sineste?sicos e lingui?sticos que nos confundem mas nos alargam as capacidades perceptivas e de interpretac?a?o. Esta provocac?a?o, conte?m ainda um forte sentido lu?dico, feito de jogo, brincadeira e ironia, que nos desconcerta e desordena para, no fim, nos oferecer algo novo.
Diri?amos que tre?s planos fundamentais te?m estado coerentemente presentes e cruzados no percurso arti?stico de RV. A atitude experimentalista, a conexa?o e transposic?a?o entre universo sonoro/musical e o universo visual/arti?stico, a refere?ncia a? histo?ria da arte conceptual. Sabotage e? na primeira impressa?o um clima, uma composic?a?o. O espac?o da galeria e? tornado um espac?o total, onde som, objecto visual, histo?ria da arte, luz e espac?o arquitecto?nico se confundem e contaminam, onde todos sa?o sujeito e presenc?a.
A exposic?a?o parte da ideia de adulterac?a?o e reinterpretac?a?o de outras obras de arte. Os objectos e conceitos sa?o submetidos a operac?o?es bastante simples mas com um efeito massivamente transformador. Tornam-se outros. Explora-se o potencial de simulta?neo reconhecimento e surpresa: “Estas obras sa?o duplos de outras obras. Estas obras na?o sa?o duplos de outras obras”, diz o artista.
Os enunciados das pec?as de origem sa?o amplificados, tornam-se sonoras, mudam de escala, tornam-se visi?veis e/ou audi?veis qualidades escondidas, obras diferentes sa?o misturadas entre si. Manifestam-se contradic?o?es, inverte-se o sentido da percepc?a?o- cognic?a?o, desdobram-se significados, cita-se mas com voz pro?pria.
RV, por um lado apropria-se, sabota, subverte. Por outro, referencia, homenageia, reconhece a? fonte o seu poder de na?o ser passado ou arquivo morto, mas continuar a ser esti?mulo. O poder de poder ser, de novo, novo. A intersecc?a?o tambe?m aqui se exerce, e? troca e avanc?o, os objectos ficam crivados por outro pensamento arti?stico, outro universo pro?prio.
Impli?citas esta?o tambe?m as reflexo?es sobre o novo, a originalidade. Sobre os processos de criac?a?o e sobre a condic?a?o da arte e do artista. A arte e? um acto pu?blico e enquanto tal e?
Apartado 026018 EC-Lapa, 1201-801 Lisboa, Portugal / T +351 91 236 94 78 www.franciscofino.com / ffino@franciscofino.com
entregue ao mundo. Nesse momento e? representante de uma actualidade mas se permanecer pensamento vivo fica sujeita a? transformac?a?o. Ao artista cabe criar arte. E faze?-lo com o seu pro?prio selo e com as condic?o?es do momento em que vive. O selo na?o e? sena?o aquilo que ele e? capaz de reinventar e originar a partir da sua limitac?a?o e singularidade perante o que existe ao seu dispor. Um jogo entre possibilidades e impossibilidades, mas uma busca de revelac?a?o e novas associac?o?es. A regra desse jogo e? a experimentac?a?o.
Voltamos assim ao ti?tulo da exposic?a?o, Sabotage. Como se inventa o novo sena?o pela subversa?o do que ja? existe? Experimentalismo e? risco e provocac?a?o, e? inovar, e? pegar pelo avesso. E? sabotagem ou experimentalismo? E? uma coisa e a outra. A intersecc?a?o ou a converge?ncia de sentidos, mesmo se contradito?rios, e? sempre uma verdade mais inteira.

Joana Coelho Setembro 2013



RUI VALÉRIO. #5. 2013

KUBIK GALLERY. . 01.06.2013 – 18.07.2013

Press Release

O trabalho de Rui Vale?rio debruc?a-se sobre relac?a?o entre as artes visuais e a mu?sica, ou entre o som e a imagem, que o fazem trabalhar sistematicamente sem nunca se esgotar. Conceitos como a apropriac?a?o e a interpretac?a?o de trabalhos de outros artistas tambe?m na?o lhe sa?o estranhos. Um dos seus principais interesses e? o som como base para a criac?a?o: como produto ou enquanto produtor. Muitas vezes Rui Vale?rio tem mesmo um referente arti?stico. Na?o escondendo as refere?ncias, faz antes um jogo aberto e expli?cito onde nos revela a fonte. Desta forma, e? imediata a compreensa?o do que o levou a? construc?a?o de determinado trabalho e o porque? da utilizac?a?o de certos materiais.
Esta e? a primeira exposic?a?o de Rui Vale?rio na Kubikgallery apo?s Remix (2011, Galeria Marz, Lisboa).

Kubik Gallery

Folha de sala

Composta por oito obras, esta exposic?a?o mante?m-se fiel aos movimentos de refere?ncia e transposic?a?o do universo musical para o universo visual que te?m caracterizado o trabalho de Rui Vale?rio. Mas mais do que esta imediata associac?a?o, o trabalho arti?stico de RV resulta na materializac?a?o da si?ntese de universos, de formas de pensamento, de referenciais culturais, ou seja, da conflue?ncia e sobreposic?a?o dos sentidos perceptivos e de interpretac?a?o. Desta conflue?ncia adve?m um forte sentido de provocac?a?o, conseguida atrave?s de duplos sentidos, de cruzamentos associativos e de paradoxalidades.
#5 apresenta-nos pec?as cuja construc?a?o e? feita de opostos em conflito que mutuamente se constroem: ocultar-revelar, visual-auditivo, geometria-distorc?a?o, fixo-cine?tico, repetir-inovar, popular-erudito, velho- novo. A ocultac?a?o esconde ou revela? (Single Line, Subtitle, Chicks On Records Sleeves, John Cage Meets Sun Ra). Pode a mu?sica ser visi?vel ou a cor ser mu?sica? (Color Music, Blues). Pode um quadrado ser ou tornar-se ci?rculo? ((A)round a Square A.K.A.. Squarepusher). Pode um original ser a afirmac?a?o da impossibilidade do artista ser original? (Subtitle) O tempo e? idade e mortalidade ou permane?ncia e intemporalidade? (No age)
Para ale?m de multiplicidade de refere?ncias, da cultura erudita e conceptual ou da cultura popular, e do conceptualismo inerente ao trabalho de Rv #5 e?, em simulta?neo, uma exposic?a?o decorrente e reveladora da condic?a?o do artista. O artista enquanto indivi?duo submerso e leitor activo do mundo multi-sensorial que o rodeia e estimula. O artista resolutor do conflito perante as possibilidades (leia-se, originalidade) e impossibilidades. O artista perante o tempo. O tempo onde se actualiza a histo?ria e o passado, perante o paradoxo da sua arte permanecer, enquanto o pro?prio, ainda que um olhar novo e sem idade, e? mortal.

Texto de Joana B. Coelho


RUI VALÉRIO. REMIX. 2011
MARZ GALLERY.

MARZ – Galeria is pleased to announce REMIX, a solo exhibition by Rui Valério (Lisbon, 1969), the artist’s second with the gallery since Volume II in 2009. Previewing on Saturday March 26 from 6 to 9 pm, the exhibition will be on view until May 15.
Using the accepted gallery mediums of painting, photography, sculpture and works with paper, REMIX reflects the artist’s rapport with a universe of images and sounds critically culled from the popular music industry and its avant-gardes, as well as the now-obsolete, cast aside recording materials of the industry.
Valério’s place of work is, one might say, a location for listening, a chamber where existent material – sonorous or silent, recorded or visual - is contemplated and probed, not as fixed and frozen ossified artefacts from the past, but as rich sounding objects, experiences and memories that demand renewed engagement. Somewhere between, as he states, reproduction and representation, repetition and re-vision, the mechanically perfunctory and intended plasticity, the record covers he chooses to reproduce in this exhibition (Fear of Music by the Talking Heads, Back in Black by AC/DC, Magnificent Two – Piano Performances by Leonid Hambro and Jascha Zayde, On the corner by ?, and Provocative Percussion, with its cover by Joseph Albers) are not duplicates of their originals. By editing certain details or working with different technologies, these works become doppelgangers of the original sleeves, stand-ins that deliver their lines, telling another story or stubbornly intonating parts otherwise ignored by previous versions.
These versions on canvas, in certain instances, also intend to stress the support on which they are executed – a piece of fabric stretched on a firm wood structure - traditionally a flat surface or window onto something, where the canvas and its objecthood is of little importance. By reversing the painting and showing its structure, such as in ‘Back to Black’, or its shape and rigidity, by way of its placement on a corner, the canvas as a three-dimensional object itself gains ground.
In another work included in this exhibition, ‘Sound on Paper’, Rui Valério overtly speculates on the nature of drawing. This work is comprised of several frames containing blank sheets of paper. Behind each sheet, a small speaker reproduces a modified version of an Alvin Lucier score. Void of sound (the speakers emit a specific frequency), this set of works explores vibration itself as a means of producing sound, and drawing as motion or activity, rather than line or inscription.
On choosing his material, Rui Valério removes his objects from their original sites of circulation, freeing them from their dominant logic. This cut obliquely exposes certain logics. Two of the works on display are exemplary of this, one being the sculpture-drawing ‘90 min’, made by unwinding a 90 minute audio cassette and then rewinding it along a grid or path traced along the gallery wall, the other being the photograph ‘Tapesongs’, a restaging of the original Joan La Barbara record sleeve, where La Barbara herself stands covered, virginal, swathed by a waterfall of tape. Taking the latter as a case in point, an exact replica of the image today is next to impossible. Film, lighting, paper, in other words all the technology employed in the original seventies picture, with its grain and warm hue, has been substituted. Valério, one might construe, calls into question this disposability and our throwaway logic. Reminded of the miles of recorded cassette we have in our homes, miles and hours of material haunt us given that we have silenced these voices and experiences. These works, one might say, bespeak of the downside of transmission and technological disposability and the aesthetic experiences lost as we progressively upgrade. Appropriation becomes evocation.

Texto de Nancy Dantas

RUI VALÉRIO. VOLUME II. 2009

MARZ GALLERY. 06 de Mar a 11 de Abr de 2009.

Uma parte significativa do trabalho recente de Rui Vale?rio (Lisboa, 1969) prende-se com aquilo que a historiadora e cri?tica de arte norte americana Jennifer Gonzalez designa por “gramofonia criativa” ou “gramofilia”: a reflexa?o sobre os lac?os emocionais que se geram entre o disco sonoro e o seu proprieta?rio; a evocac?a?o do fetichismo do vinil e fantasias projectadas nas capas dos discos.
Os trabalhos que Rui Vale?rio reu?ne na exposic?a?o Volume II, patente na MARZ Galeria entre os dias 6 de Marc?o e 11 de Abril, sa?o um exemplo paradigma?tico de reflexa?o sobre este feno?meno cultural e social. Tanto no caso das seis pinturas da se?rie Music in Twelve Parts como no do vi?deo White Noise, o artista apresenta diferentes capas de disco que integraram ou integram colecc?o?es; objectos esses que deixaram de ser ouvidos pela sua fragilidade e que passaram a ser vistos e transaccionados como aute?nticas pec?as.
Parece-nos oportuno aqui lembrar a ana?lise levada a cabo pelo filo?sofo france?s Jean Baudrillard acerca da psique e da actividade do coleccionista. Num texto originalmente consultado na sua traduc?a?o inglesa, The Systems of Collecting, que agora parafraseamos, Baudrillard afirma que no coleccionismo, o objecto e? despojado da sua func?a?o habitual e abstrai?do do seu contexto pra?tico para passar a ter um estatuto puramente subjectivo. Ou seja, a func?a?o que antes definia o objecto – um registo sonoro, no nosso caso – cessa e o seu significado passa a depender totalmente do sujeito que o impregna da sua personalidade, chegando muitas vezes a identifica?-lo com uma marca qualquer de posse ou de catalogac?a?o.
Para a pec?a White Noise, a primeira que se apresenta ao espectador nesta exposic?a?o, o artista fotografou a capa de va?rios exemplares do disco White Album dos The Beatles, originalmente editado em 1968. Este a?lbum histo?rico e? considerado um dos discos mais populares, mais reconhecido e mais vendido de todos os tempos. A sua capa totalmente branca e? da autoria de Richard Hamilton. O disco em si foi objecto de inu?meras edic?o?es locais, autorizadas e outras na?o autorizadas.
Nesta projecc?a?o vi?deo sonora, o registo visual que o artista fez de cada capa cumpre uma func?a?o dupla, de evocac?a?o da actividade do coleccionista (uma actividade de adorac?a?o, de individuac?a?o e de culto) e de relevac?a?o dos diferentes estados de conservac?a?o de cada disco. Para Rui Vale?rio, esta func?a?o segunda - o registo dos riscos e da sujidade, do amarelecimento provocado pelo envelhecimento do carta?o e inscric?o?es deixadas pelos respectivos donos - assume um papel preponderante, pois sa?o as marcas do tempo e de uso, essa patine na sua dimensa?o indexical, que se torna a questa?o central, salientando o que ha?, nas palavras do artista, de u?nico e irreproduzi?vel num objecto reproduti?vel.
A sucessa?o vertiginosa de imagens – tre?s frames por capa – sempre com o mesmo enquadramento, os resi?duos e a cor, provocam um efeito de aproximac?a?o formal deste vi?deo a? peli?cula de cinema. O som captado, por sua vez, corresponde ao espac?o entre as mu?sicas e ao ini?cio e fim dos discos. Assim, e?-nos dado a escutar o rui?do, tambe?m ele aura?tico, dos riscos e envelhecimento da superfi?cie do vinil.
No segundo conjunto de trabalhos em mostra, Music in Twelve Parts, Rui Vale?rio baseia as seis pinturas que apresenta no conteu?do de uma caixa de discos com o mesmo ti?tulo, editada em meados dos anos setenta pelo mu?sico Philip Glass. Esta caixa apresenta seis capas diferentes com um mesmo desenho, Non straight horizontal lines da autoria de Sol Lewitt. Rui Vale?rio adopta o desenho original de Lewitt, bem como a combinac?a?o das cores escolhidas posteriormente para a edic?a?o discogra?fica. Contudo, afasta-se de qualquer exerci?cio puramente referencial, eliminando toda a informac?a?o paratextual original contida nas respectivas capas. Aqui, Rui Vale?rio parece aliar com uma longa fileira de artistas que se opuseram e que continuam a impugnar a santi?ssima trindade da Arte (a autonomia, a originalidade e a autoria) atrave?s de uma pra?tica eminentemente apropriacionista, associando-se paralelamente a? tradic?a?o da investigac?a?o sineste?sica, de criac?a?o de corresponde?ncias entre tons musicais e tons de cor.
Rui Vale?rio nasceu em 1969 em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Frequentou durante um ano a escola Ar.Co em Lisboa e em 1993, teve a primeira exposic?a?o individual do seu trabalho. Concluiu em 2008 a sua Teste de Mestrado em Artes Visuais/Interme?dia na Universidade de E?vora onde trabalha actualmente como Assistente. Das suas exposic?o?es individuais contam-se LP no espac?o Appleton Square, Lisboa, 2007, Historia de La Musica Rock, CAMJAP, Fundac?a?o Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003 e Historia de La Musica Rock, Atelier Museu Anto?nio Duarte, Caldas da Rainha, 2002. Recentemente participou nas exposic?o?es colectivas On the edge, in the middle, Janalyn-Hanson White Gallery, Iowa, 2008, Where are you from?, Faulconer Gallery, Iowa, 2008, Central Europe 2019, Plataforma Revolver, Lisboa, 2008, Densidade Relativa, CAMJAP, Fundac?a?o Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2005.

Texto de Nancy Dantas