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Sons sem decibe?is e desenhos de luz

06.04.2011 - Jose? Marmeleira
Jornal Pu?blico – Suplemento Y (versa?o online)

"Remix", na Galeria Marz, em Lisboa, renova e remistura o fasci?nio do artista Rui Vale?rio pelo universo da mu?sica. Em pinturas que nascem de capas de discos e em desenhos que te?m sons, movimento e luz. Na?o e? um concerto, mas podia ser
Bruce Russel, o guitarrista dos australianos Dead C, escreve em "Left-Handed Blows: Writing On 1993-2009" que, antes da economia da internet, os discos faziam parte de uma modernidade na qual se sustentavam va?rias tradic?o?es cultuais experimentais. E? essa condic?a?o histo?rica que Rui Vale?rio (Lisboa, 1969) reconhece em "Remix", na Galeria Marz, com tre?s capas de discos que se transformam numa fotografia e em duas pinturas. Alquimia que, acrescentada a duas pec?as sonoras e a um desenho, faz desta exposic?a?o individual uma das mais estimulantes do ano.
Desde pelo menos a de?cada de 50 do se?culo passado que um dia?logo entre as artes visuais e a mu?sica (de vanguarda ou popular) se desenha, em colaborac?o?es e evocac?o?es, sobre a superfi?cies que cobrem os vinis. O artista comec?ou a explora?-lo em 2002 com o vi?deo "Historia de La Musica Rock" e a partir de 2007 tornou-o a tema central do seu trabalho com as exposic?o?es "LP", na Appleton Square (em 2008) e "Volume II", na Marz (2009). Capas de discos de Philip Glass, Kraftwerk, The Beatles, Tony Conrad foram algumas das imagens que utilizou e manipulou para, citando uma das suas maiores refere?ncias, o compositor americano Christian Marclay, "introduzir o som com estrate?gias que na?o implicam decibe?is". Rui Vale?rio, que nos anos 90 chegou a prosseguir secreta carreira de mu?sico, na?o e? um colecionador de LPs: "Tenho poucos em casa, nem sempre tive dinheiro para os comprar", confessa desassombrado. "O disco em vinil fascina-me pelo seu formato especi?fico, pela relac?a?o entre a imagem e o objeto, mas ouc?o mu?sica sobretudo no mp3 e no eTunes". Ironicamente, a internet na?o surge como inimiga ou obsta?culo. "Permite- me ter acesso a imagens que de outra forma dificilmente conheceria. Posso materializa?- las como objetos de arte". A selec?a?o e? intuitiva e revela diferentes aproximac?o?es. Alguns exemplos: a pesquisa em torno das capas de "Music In Twelves Parts (1988), de Philip Glass, trouxe para o "white cube" uma pintura de Sol Le Witt. "Quis devolver a? galeria ou ao museu uma imagem criada por um artista especificamente para o formato da capa de disco". A intervenc?a?o sobre o texto e o objeto foi exemplificada na pintura inspirada na reedic?a?o de "Fantastic Glissando", de Tony Conrad - "transformei a capa e a contracapa num di?ptico e coloquei no espac?o expositivo uma mensagem que tem a ver com o universo da mu?sica". A sinestesia foi outra estrate?gia. "Peguei no "Radioactivity", dos Kraftwerk e deixei apenas a imagem da coluna de som, sem mais informac?a?o, como uma forma de introduzir o som no sile?ncio."
Desenho e som
Os trabalhos de Remix assinalam um novo momento da pesquisa, mais concentrado, com soluc?o?es que disparam em va?rias direc?o?es. Em "Provocative Percussion", a partir de uma imagem de Josef Albers para um disco do mu?sico Enoch Light, o quadrado do LP e? abandonado, e cada forma geome?trica passa a ser uma tela. "Back In Black" nasce de um jogo de linguagem com o ti?tulo do disco dos AC/DC e mostra o reverso de uma tela negra. E "Tapesongs", que assinala a primeira incursa?o de Vale?rio pela fotografia (a imagem original e? do disco homo?nimo da compositora e vocalista Joan La Barbara), esconde elementos autobiogra?ficos. A mulher envolvida em fitas de cassete chama-se Patri?cia Roma?o, ex-namorada e companheira do artista: "Tivemos um projeto de estu?dio entre 1995 e 1998, na?o da?vamos concertos. I?amos para o gravador de quatro pistas, eu tocava e ela cantava. As fitas sa?o das nossas cassetes, que tinha em casa e que poucos ouviram".
Ao evocar a produc?a?o e a gravac?a?o de mu?sica, "Tapesongs" e? talvez a pec?a que espelha todas as outras obras de Remix, das inspiradas nas capas e das pec?as sonoras ao desenho "90 min", onde a fita da cassete deixa de ser o deposita?rio de memo?rias de um tempo, para medir espacialmente o (seu pro?prio) tempo: os 90 minutos "Quis expor a durac?a?o da fita como um desenho e desenrolei-a. E como e? um material refletor foi apanhando reflexo e brilhos diferentes".
"Wall to Floor", feito com 10 la?mpadas fluorescentes (material que Rui Vale?rio ja? experimenta desde 1998 e que apresentou na edic?a?o de 2002 da exposic?a?o "7 Artistas ao 10o Me?s", comissariada por Francisco Vaz Fernandes), e "Sounds on Paper" tambe?m podem ser vistos como desenhos, desenhos que se ouvem. O primeiro, mediante uma descarga de freque?ncias agudas compo?e um ritmo aleato?rio, embora estranhamente sedutor, de luz e som (e? esta a ordem dos dois feno?menos).
"Sound on Paper" configura o dispositivo cla?ssico da apresentac?a?o do desenho: molduras com diferentes escalas e dimenso?es. Na?o se vislumbra, contudo, a protec?a?o do vidro. Antes o movimento, a reverberac?a?o de folhas de papel, ativada por um mecanismo a que na?o temos acesso. "Quem teve esta ideia foi o [compositor france?s] Alvin Lucier. Ele tocava esta pec?a em seis cavaletes debitando freque?ncias sonoras sobre desenhos emoldurados. O tema pode ser ouvido no disco 'Sferics', editado pela Lovely Music, e tem um som muito mais poderoso do que o meu trabalho, pois mistura as possibilidades do som audi?vel com a vibrac?a?o das folhas, enquanto eu reduzo a freque?ncia para metade. O som so? aparece quando entra em contacto com a barreira que e? o papel.". Separadas por uma parede, "Wall to Floor" e "Sound on Paper" enchem a sala da galeria de freque?ncias graves e agudas, numa sinfonia de claro?es e tremores. Sob o sile?ncio das imagens, a mu?sica de Rui Vale?rio mostra-se enfim para que a possamos ouvir.


http://ruivalerio.com/files/gimgs/th-192_publico remix jm lr.jpg
texto josé marmeleira. jornal público