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Processo de Trabalho: Auto-Análise Cronológica


2018

Actualmente tenho 3 projectos fechados e 1 em desenvolvimento com interesses comuns - o questionamento do sistema da arte actual e a influência do seus agentes determinantes (especialmente em Portugal).
Hoje, como nunca antes, escreve-se história de arte de forma distorcida, por intervenção e crescente domínio dum agente mediador que legitima a obra do artista e determina, por completo, a possibilidade da sua existência pública.
Instituições, Galerias e Coleccionadores agem por seu conselho, por saberem que neles reside um poder ditatorial de mostrar ou não a obra e, consequentemente, de controlarem o seu valor económico.
A figura democrática da apreciação de uma auto-proposta de um projecto por iniciativa de um artista já não existe. A programação dos espaços mais importantes é feita por nomeação directa e incontestável - a programação do Curador.

Os títulos dos projectos concluídos que aguardam a hipótese de serem produzidos e apresentados em formato de exposições individuais são: Art Power; Templates Vol - 01 e Punks Not Dead'. Apenas Afinal o Mundo Não é Redondo ainda não está bem definido e será, dos 4, o que usa uma abordagem mais subtil da mesma questão e implica um processo de experimentação de materiais e soluções que ainda necessita de ser testada. Nos restantes 3 utilizo técnicas que já domino há bastante tempo e apenas carecem de lugar de apresentação para materializar as peças e evitar custos de produção imediatos e, por enquanto, inconsequentes.


Art Power, de 2017, é o único que está orçamentado e poderá ser exibido, eventualmente, na primeira metade de 2019. É uma exposição individual comissariada, por convite aceite, por Paulo Mendes (compromisso que dependerá da obtenção de condições de produção necessárias).
Este projecto parte do questionamento do livro homónimo de Boris Groys e todas as peças são reformulações intencionais de obras de arte contemporânea e autores consensuais no domínio da história da arte contemporânea e a peça central será uma versão, da emblemática peça de Piero Manzoni Artist's Shit, ganhando um sentido intencional a partir da transposição do seu sentido para a figura do Curador e a data correcta indicativa da operação efectuado.



Curator's Shit será a peça central deste projecto.




Curator´s shit será uma reconstituição fiel do processo de produção, embalagem, conteúdo e rebranding da etiqueta da peça original, obviamente com o conteúdo e identificação da embalagem com a alteração necessária que torna explícito que o seu conteúdo é proveniente do Curador.

Art Power também incluirá uma peça produzida em 2016 (que pertence a uma colecção privada). Foi adquirida num acervo e integra-se plenamente no discurso geral do projecto. Corresponde a uma fase inicial do processo de raciocínio consolidado neste projecto. Uso as mesmas palavras duma peça de Bruce Nauman e com uma simples inversão, subverte o sentido original drasticamente em sarcasmo, humor e provocação. Este uso da ironia é comum a todas as peças previstas para a exposição.




Please Attention Please Pay. 2016. Acrílico sobre tela. Dimensões 100x100cm.
(colecção privada).






Bruce Nauman. Please, pay attention please.1973.




Afinal o Mundo Não é Redondo

Este projecto encontra-se em fase de investigação e ensaio no atelier. A relação com a noção de 'Grid' / 'Grelha' segundo Rosalind Krauss será incontornável e condutora de um pensamento acerca do conceito de vanguardas e da sua relação com o momento actual.

A partir de uma folha de papel milimétrico da marca Canson, esta peça é uma representação da sua grelha útil, respeitando as diferentes espessuras e cor de forma aproximada, à escala 1/10. A partir desse cálculo a peça fica a medir 180 cm de largura e 270 cm de altura.




Imagem da peça montada no atelier. dimensões 270x180cm.


Depois de feitas as marcações, são esticados directamente na parede, sustentados com um alfinete em cada das ponta os 180 fios verticais respeitando as espessuras indicadas, a 1 cm de distância entre si, ficando assim concluídas as linhas verticais que definem os 270 cm de altura da peça. A estas linhas são sobrepostas 270 horizontais ocultando a extremidade dos respectivos alfinetes por baixo das linhas verticais que definem as extremidades da peça.





Em imagem aproximada percebemos que as linhas são encostadas à parede, criando uma presença subtil que se assemelha a uma desenho na própria parede.

Encontro a génese dos trabalhos que estou, neste momento, a ensaiar no atelier, numa peça, em que reconheço um momento de descoberta essencial. Permaneceu adormecido e recentemente recuperei-o como modo de trabalho consecutivo, de apuro na utilização de materiais, nas peças que quero testar no Afinal o Mundo Não é redondo

Foi em 2009 que realizei a peça 120 Min.



120 min.. 2009. Cassete áudio, pregos, instruções de montagem. (detalhe).

A libertação de um suporte físico coloca sempre problemas de ordem pragmática na montagem da peça. Em 120 Min. Descobri essa dificuldade mas também uma enorme diferença na sua presençain situ mantendo o rigor desde que seja montada de acordo com as instruções - de aparentar ser sempre igual (apesar do seu material não mais poder ser recuperado). Neste aspecto reside outro interesse que só agora detecto - restringir ao curador decisões de interferir no modo como a 'encena' - a possibilidade conquistada de interferir e decidir de uma forma criativa perante a obra do artista. Considero este processo de trabalho distinto da prática habitual da instalação, adaptável e configurada em consonância com o espaço que habita. Designei este processo como: instruções de montagem. Neste caso a totalidade da fita magnética, contida no interior de uma cassete é desenrolada e apoiada em pregos. Estes pregos são as coordenadas que definem o desenho com exactidão.
Sobre esta peça e a sua consequente de 2011, 90 Minirei fornecer informação mais detalhada de acordo com a cronologia do trabalho.



Com este mesmo material - fita magnética de cassete, recentemente montei uma peça muito simples que, de forma idêntica a 120 Min., reitera um interesse permanente - a convocação do som ou relação com a música. Apesar de ser menos óbvia a relação com o tema da exposição 'Sonatas And Interludes', explorei um tema que sempre me interessou - a notação musical não convencional. Em Untitled (Two Apparently Tangent Squares) detecto um encontro entre a exploração formal de carácter geométrico de influência minimalista e a sugestão da existência dum potencial de som no material - a presença do som é factual porque uso cassetes com gravações sonoras. A estrutura formal não confirma de forma óbvia outro tipo de relação com música, mas quando a fiz interessou-me tentar estilizar graficamente a estrutura dum caderno aberto com a introdução duma volumetria.




Untitled (Two Apparently Tangent Squares). 2017. Fita magnética de cassete, pregos, cola, instruções de montagem. 60x33x3 cm.(colecção privada)


Nesta mesma exposição, esta peça da série 'Untitled (Visual Score From the Sonatas and Interludes Series)' revela uma relação entre a utilização do fio e a questão central da notação musical não convencional - o mote da exposição.




'Untitled (Visual Score From the Sonatas and Interludes Series)'. 2017.


A linha também foi um material usado na maioria da série de peças que considero pautas visuais. Nestas a linha é utilizada sobre um suporte físico - folhas de pauta de música coladas em K-Line - e deram origem a uma vasta série de peças que não se distinguem no seu título comum - 'Untitled (Visual Score From the Sonatas and Interludes Series)'. Se na peça anterior experimentei uma solução tridimensional na sua grande maioria a linha é apenas uma forma de inscrição visual sobre a pauta.





'Untitled (Visual Score From the Sonatas and Interludes Series)'. 2017. Folha de pauta de música sobre suporte Kline, lã, moldura. Dimensões próximas do formato A4 ainda não calculadas.




Vista da exposição 'Sonatas and Interludes' - várias peças sobre suporte de papel de pauta de música com intervenções visuais com linhas da série 'Untitled (Visual Score From the Sonatas and Interludes Series)'. 2017-2018, Kubik Gallery, Porto.



A próxima peça que pretendo ensaiar, no âmbito do projecto 'Afinal o Mundo não é Redondo', parte dum desenho da artista Agnes Martin e representa na sua aparência formal um enviesamento da grelha.




Agnes Martin, 'Aspiration', 1960. Ink on paper, 11 3/4 x 9 3/8 inches (29.8 x 23.8 cm)


Neste caso irei experimentar, com materiais idênticos, linhas de tecido de diferente espessuras em tensão, uma solução que afaste significativamente da parede - uma presença no espaço que de forma óbvia a retire de uma relação directa com a parede. Será uma radicalização do que fiz em 'Untitled (Sound Particles)', de 2017, que montei recentemente na exposição 'Sonatas and Interludes'.




'Untitled (Sound Particles)'. Vista aproximada, 2017.


Esta peça utilizava linhas finas de cor branca como suporte para criar um desenho suspenso, afastado 7 cm da parede, com chumbos de pesca de vários calibres.




'Untitled (Sound Particles)'. Vista distanciada, 2017.

Uma vista mais distanciada permite entender que a peça era apoiada apenas no chão e no tecto.A solução de apoio no tecto e no chão não faz parte da peça, foi apenas uma solução encontrada mediante a restrição de condições de montagem no local. Idealmente estes apoios são embutidos tornando-se invisíveis.


Mas também poderei chegar à conclusão que necessito de utilizar diferentes materiais para peças de carácter tridimencional, este esboço de 1966, de Mel Bochner, poderá ter de ser realizado num material cuja resistência permita a construção volumétrica das linhas de contorno do objecto, com uma espessura que lhe confira uma leveza idêntica à que encontro na linha de coser mas com uma solidez que se revele suficiente para a integridade do objecto.




A escolha do título -'Podium', serve para introduzir o potencial discursivo pretendido. É uma primeira metáfora indicativa dum poder hierárquico, que até do ponto de vista formal é sugerido pela estrutura da volumetria e se tornará, ainda mais, explícito no seu subtítulo...


Em muitas das outras peças deste mesmo projecto a linha será o material eleito sempre que se revelar suficientemente sólido para solucionar a peça, como no caso desta peça de texto, construída a partir do reposicionamento de blocos de um desenho técnico de uma instalação de Carl André.




Collector / Curator. Fio de tecido de cor preta, alfinetes, instruções de montagem. Dimensões variáveis.





Carl André. esboço técnico de uma instalação a partir de módulos de duas medidas diferenciadas.




É no recentemente concluído projecto 'Punks Not Dead' que esse discurso crítico ao sistema se torna mais explícito, ácido, agressivo, politizado e, claramente, políticamente incorrecto.




'The Choice'





'Too Much Gays With To Much Power'





'Fear Paints His Fence'





'I Saw It Written In A T-Shirt And It May Be A good Idea'



'The Choice', 'Too Much Gays With To Much Power', 'Fear Paints His Fence'e 'I Saw It Written In A T-Shirt And It May Be A good Idea' fazem parte de uma vasta série de imagens para serem executadas em suporte de tela, com um formato normalizado de 90 x 90 cm. todas a acrílico e a preto e branco. Nestas pinturas, onde consecutivamente o texto é o seu elemento visual principal, estabelece-se ainda outra relação com o texto do título essencial para completar o potencial de sentido da peça.
Para que pudesse utilizar um certo tipo de linguagem de contracultura urbana recorri a discos de períodos históricos e estilos musicais, que utilizam uma violência verbal explícita e altamente politizada. Os períodos punk, pós punk e hardcore do contexto anglo saxónico entre a segunda metade dos anos setenta e se prolongam para os anos oitenta do século XX. Históricamente correspondem a um pré, durante e pós período político conservador e um momento de prosperidade económica e início dum sucessiva disparidade de distribuição de riqueza nos Estados Únidos no governo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no Reino Unido.


Do ponto de vista processual, o projecto 'Punks Not Dead' recupera o mesmo procedimento que usei a partir de 2006 e resultou nas exposições 'LP', 2007 e 'Vol. 2', 2009, respectivamente na Appleton Square e Marz Gallery.Por essa altura, apesar da semelhança processual, o meu interesse era o próprio processo e a exploração de estratégias de reprodução parcial e combinatórias de imagens e texto copiado a partir de capas de discos. Mas essas imagens e texto não tinham um objectivo discursivo identificado e serviam apenas como modo de identificação do cruzamento da esfera da arte e da música.





2007. Vista da exposição ‘LP’ na Appleton Square em Lisboa. Na esquerda ‘UNKNOWN PLEASURES’ (Colecção Fundação Leal Rios), de 2007, pintura acrílico sobre tela com 186x186 cm – uma reprodução transposta para tela da imagem da capa álbum homónimo dos Joy Division e na esquerda, o díptico ‘FANTASTIC CONRAD / TONY GLISSANDO’ (colecção privada), de 2006, composto por duas telas, com124x124 cm cada, que resultam de uma combinação do texto das capa e contra-capa do disco ‘Fantastic Glissando’ do mítico músico e artista Tony Conrad. Fotografia sem créditos.





2009. Vista de três peças da exposição individual ‘VOL. 2’ na Marz Gallery. Á esquerda ‘MUSIC IN TWELVE PARTS (PARTS 1 AND 2)’; no meio ‘MUSIC IN TWELVE PARTS (PARTS 3 AND 4)’ e a? direita ‘MUSIC IN TWELVE PARTS (PARTS 5 AND 6)’. Três de uma série de seis pinturas ‘MUSIC IN TWELVE PARTS’ desenvolvidas entre 2006 e 2009. Estas peças baseiam-se nas imagens das capas da edição completa em caixa do disco homónimo de Philip Glass e as capas são feitas a partir duma gravura de Sol Lewitt, em seis combinações de cor diferentes. São pinturas a acrílico sobre tela com dimensões ide?nticas: 186x186cm cada tela. (coleccão do artista). Fotografia: Marz Gallery.


É também um elemento constante, que pode ou não derivar de possibilidades contextuais que dois processos aparentemente diferenciadores, sejam distintos mas nem sempre explícitos nos resultados obtidos. Muitas das minhas peças não carecem duma experimentação de materiais e processos técnicos, de acordo com a natureza da ideia,o trabalho pode dispensar actividade de atelier e pode ser totalmente definido no computador. É o caso destas pinturas cujo processo técnico está totalmente identificado ou de outras que, inclusivamente, necessitam de contribuições de terceiros para serem resolvidas. No meu processo de trabalho existe desde o início uma ideia e uma intenção. Por vezes a sua solução é tão óbvia que o processo de produção da peça não é mais que um fabrico mais artesanal ou mais industrial. Noutros casos as ideias precisam de ser ensaiadas e diferentes tipos de soluções técnicas tem ser experimentadas e comparadas e levam tempo para serem resolvidas ou eventualmente revelam-se pouco eficazes.
Mas também tenho a necessidade, por vezes, de me soltar de processos tão cerebrais e levar-me por intuições espontâneas no atelier. Muitas vezes essas experiências mais espontâneas não resultam mas noutras é onde se descobre um novo potencial processual e dessa experimentação podem resultar peças de extrema eficácia. Para mim, misturar estas duas metodologias não é um risco, ao invés, creio que é precisamente sobre isso que a prática artística é: um incessante processo de renovação e experimentação; criação de novas ideias e metodologias sem um medo desse processo contrariar o mito da identidade visual da obra.
Se um Mondrian é inconfundível, um Rauschenberg já não o é. E nesse caso se a aparência de muitas das minhas peças recorda os períodos minimalista e conceptual - em que a maioria dos artista trabalharam a vida inteira uma única via, em termos processuais, identifico-me muito mais com Rauschenberg e a sua ideia de que a arte e a vida são inseparáveis. As pessoas mudam passam por diferentes fases e interesses - um percurso linear entra em completa contradição com a ideia da evolução dum indivíduo - e o artista é, na minha perspectiva, um indivíduo. Mesmo que a sua projecção ganhe uma dimensão em que se torna um gestor ou realizador não haverá necessariamente razão para manter sempre uma linha contínua de trabalho.






'O elo Mais Forte'. Capa de Single pintada de proveniência desconhecida, intervenção a marcador vermelho na parede. Experiência de atelier.2018.